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Vaca louca: Pres. do INDEA revela, “trabalhamos em sigilo absoluto”

Seguindo um protocolo de segurança e para resguardar a cadeia produtiva da carne, a entidade manteve em sigilo absoluto todas as informações sobre o caso de EEB identificado em MT.

Em entrevista ao portal AGRONEWS BRASIL, o presidente do INDEA-MT, Dr. Tadeu Mocelin, revela todos os detalhes da condução do caso identificado em Mato Grosso de Encefalopatia Espongiforme Bovina(EEB), também conhecida como mau da “Vaca louca“. Você vai acompanhar com exclusividade nesta matéria especial as principais informações que ainda não tinham sido divulgadas.

A identificação do caso de EEB em Nova Canaã

Para entendermos o caso, uma vaca de 17 anos foi identificada durante um abate de rotina, no município de Nova Canaã.

Após exame de triagem prevista no sistema brasileiro de vigilância para EEB, o INDEA foi notificado oficialmente em 13 de maio e imediatamente começaram as investigações epidemiológicas em conjunto com o ministério.

E no dia 31 foi recebido o resultado confirmando se tratar de um caso atípico da doença e o caso foi encerrado pelo MAPA.

“Adotamos esta postura para salvaguardar o mercado brasileiro e por fazer parte do que estabelece nossa rotina de segurança. Não poderíamos divulgar nenhuma informação nas fases iniciais de coleta de dados e comprovação”, ressalta o presidente do INDEA.

Ele relembra que em 2014, tivemos um caso semelhante aqui no estado, porém os desdobramentos foram bem diferentes. Segundo análise de Mocelin, houve um vazamento de informações muito precoce, ainda nas fases de coleta de dados e comprovação, isso acabou virando notícia mundial e afetou diretamente o comercio internacional da carne, fazendo com que 16 países suspendessem a importação da carne brasileira. “Os prejuízos foram imensos, afetando diretamente os produtores e frigoríficos. O bloqueio perdurou até que a OIE emitisse o parecer oficial sobre o caso” relembra Mocelin.

Neste caso que aconteceu agora, nós já estávamos trabalhando há algum tempo. Quando apareceu esse animal, foi feita a coleta e na triagem foi confirmado, mas nós mantivemos em total e absoluto sigilo. Somente alguns veterinários envolvidos, de forma bem discreta, foram ao local para continuar os trabalhos e desenvolver o protocolo de epidemiologia que nós temos que fazer, mas tudo em total silêncio”.

Quem sabia era eu, os técnicos envolvidos e logicamente comuniquei ao governador do estado”, confessa Tadeu Mocelin.

Até este determinado momento, não havia a confirmação se caso em questão, se tratava do tipo clássico ou atípico da doença, por isso o sigilo foi fundamental para manutenção do equilíbrio no setor, afirma Mocelin.

A diferença foi muito grande na tratativa destes dois casos, os impactos financeiros observados em 2014, foram minimizados com a atuação eficiente e ágil da defesa sanitária do estado em 2019. A preocupação foi a manipulação da informação para beneficiar alguns agentes de mercado, que poderiam usar o caso e a propagação da mídia para fazer baixar o preço pago ao produtor.

Sanitariamente, não há razões para o produtor ficar preocupado com uma possível queda de preços causada por este caso de encefalopatia. Não posso falar em questões de mercado, mas este caso não interfere em nada no comércio”, avalia Tadeu Mocelin.

Sobre a suspensão da exportação à China

Segundo oficio circular do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), todos os carregamentos de carne bovina expedidos após o dia 31 de maio deverão retornar ao Brasil.

A China é hoje o maior comprador de carne bovina do Brasil. De acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), o país adquiriu 322,4 mil toneladas de carne bovina brasileira em 2018, crescimento de 52,5% ante 2017. Só nos primeiros quatro meses de 2019, o volume exportado para o mercado chinês soma 95,7 mil toneladas ante 84,3 mil toneladas em igual período do ano passado.

De acordo com o ministério, a suspensão das exportações atende a um acordo sanitário entre Brasil e China e é temporária e “protocolar“. A pasta informou que a medida é “automática” e está prevista no documento assinado em 2015 com a China, que prevê a suspensão quando houver algum risco após a detecção de alguma doença. Segundo o ministério, não há risco sanitário no Brasil.

Em primeira mão, Mocelin informou ao portal AGRONEWS BRASIL que a OIE já deu por encerrado este caso e que não houve nenhuma alteração em nosso status, com isso não há motivos para que outros países deixem de importar carne brasileira.

“Quem faz o desbloqueio é próprio ministério. A China solicitou mais algumas informações, o que é de praxe, e deve liberar oficialmente a comercialização nos próximos dias, acredito que muito brevemente. É questão de as autoridades chinesas avaliarem as informações enviadas pelo Brasil”.

Abaixo você pode assistir um trecho da entrevista do presidente do INDEA-MT, Tadeu Mocelin concedida ao portal AGRONEWS BRASIL.

Riscos para a saúde humana

Para ampliar o entendimento e esclarecer alguns pontos importantes para o consumidor, foi perguntado ao presidente do Indea, Tadeu Mocelin, que também é médico Veterinário, quais seriam os riscos à saúde humana, caso haja a ingestão de carne contaminada, ele esclarece que apesar de haver poucas pesquisas científicas relacionadas a doença, o que já está comprovado é que o agente infeccioso, denominado Príon, deriva de uma proteína da membrana celular – e gera um conglomerado de proteínas, alterando a atividade das células nervosas, mas este agente normalmente não está circulante na carne do animal abatido.

“Nos frigoríficos por exemplo, a parte de mais risco, que é a parte do tecido nervoso do animal, já é eliminada, principalmente destes animais mais velhos”, completa.

Ele menciona ainda que, pelo fato de sermos carnívoros, a ingestão de Príons não causaria os mesmos efeitos que observados nos ruminantes, “Se o material desta vaca especificamente, chegasse a alimentação de bovinos, o risco seria muito grande de contaminação”, Tadeu ainda reforça que é proibido fornecer proteínas de origem animal aos ruminantes.

Para nós humanos, os riscos são praticamente inexistentes, conforme explica Mocelin, ele cita os casos acontecidos na Europa na década de 90, na qual houveram óbitos e isso causou medo na população. “Nos casos acontecidos na Inglaterra e na França, as pessoas se contaminaram porque lá a situação já estava crônica, houve um consumo continuado de partes contaminadas e isso ocasionou as mortes”.

Segundo artigo publicado pela BBC de Londres, a EEB (ou BSE em inglês) é uma doença que afeta o gado. Mas há a ocorrência em seres humanos de uma doença bastante semelhante chamada Creutzfeldt-Jakob (CJD), nome dado a partir do cientista que a descobriu na década de 20. Quando a BSE começou a afetar o gado britânico, houve casos de uma variante da doença de Creutzfeldt-Jakob (vCJD), que alguns cientistas associaram ao mal da vaca louca. Mais de 130 pessoas morreram vítimas da vCJD, a maioria na Grã-Bretanha.

As vítimas teriam se contaminado por meio da ingestão de carne contaminada. Como a doença tem uma progressão lenta, levando até dez anos para a pessoa manifestar os sintomas, muitos acreditam que uma epidemia de vCJD ainda está por vir. Mas a ligação entre vCJD e consumo de carne contaminada não foi comprovada cientificamente.
Outra corrente ainda acha que ela pode ser transmitida através do sangue contaminado.

Como a epidemia de EEB começou?

O primeiro caso foi detectado em 1986 no gado britânico. As vacas e bois foram contaminados depois de ingerir rações compostas por partes de carcaças de carneiros infectados por Príons modificados. O príon existe nos carneiros e no homem, mas sua função nesses organismos ainda não foi esclarecida.

O pico do mal da vaca louca ocorreu em 1993, quando mais de mil casos eram identificados por semana. O governo britânico foi acusado de ter negligenciado o problema, tendo demorado a sacrificar o gado e alertar a população sobre riscos de transmissão.

Em 1996, um novo surto de EEB ocorreu na Europa, afetando outros países. O mesmo ocorreu em 2000, com milhares de bovinos sendo sacrificados em praticamente toda a Europa e o Japão. Mas o problema sempre foi maior na Grã-Bretanha.

Casos identificados no Brasil

Este é terceiro caso de Encefalopatia Espongiforme Bovina (EEB), do tipo atípica, comprovado no Brasil, sendo 1 no Paraná e 2 em Mato Grosso.

O primeiro caso identificado no estado aconteceu em 2014, no município de Porto Esperidião, em uma fêmea bovina de 12 anos, da raça Nelore. Desta vez, o fato aconteceu no município de Nova Canaã, o animal, também fêmea, possui 17 anos de idade, comprovando que nos casos atípicos de “vaca louca”, a doença ocorre de forma esporádica e espontânea, principalmente em animais mais velhos e não há relação com a ingestão pelos animais de ração contaminada.

Segundo Mocelin, a estatística de ocorrência destes casos atípicos é de 1 para 1 milhão, no caso de Mato Grosso, que possui uma população bovina com cerca de 30 milhões de animais, são ocorrências bem abaixo do previsto.

“Apesar da probabilidade ser pequena, isso mostra a eficiência do nosso controle sanitário, por identificar estes 2 casos em um período de 5 anos”, reforça.

Como fica a propriedade rural onde foi identificado o caso de EEB?

Após a identificação, foi feito o levantamento e toda análise prevista no protocolo de segurança sanitária.

A propriedade rural, em Nova Canaã, permanece sob vigilância, mas com as suas atividades normais. Somente os animais semelhantes (contemporâneos em idade) ao animal contaminado estão sob controle mais atento e não interditados como muitos pensam, explica Tadeu Mocelin.

“O produtor esteve sempre de prontidão, colaborando com as nossas ações e não está tendo nenhum tipo de problema com rotina normal da propriedade”.

Considerações finais

Para encerrar a nossa entrevista, o presidente Tadeu Mocelin aproveitou a oportunidade para solicitar aos produtores rurais que confiem no trabalho desenvolvido pela instituição. O Indea está presente nos 141 municípios do estado e o sucesso das ações dependem desta parceria com o produtor rural, que é o responsável por informar imediatamente a unidade mais próxima a sua localidade, caso seja identificado alguma anomalia nos animais.

“Quero agradecer a vocês, do AGRONEWS BRASIL, que também são parceiros do setor, aos órgãos de defesa e agradecer a todos os envolvidos neste episódio. Para finalizar, quero dizer ao produtor rural que pode ficar tranquilo, pois sanitariamente, neste caso acontecido aqui, não há razões para haver queda de preço no valor da carne produzida”.

Se você ainda tem dúvidas sobre o que é a Encefalopatia Espongiforme Bovina (EEB), também conhecida popularmente como “Vaca louca”, veja abaixo um resumo sobre o assunto.

O que é a Encefalopatia Espongiforme Bovina?

A Encefalopatia Espongiforme Bovina – EEB (em inglês, BSE, sigla para Bovine Spongiform Encefalopathy), conhecida vulgarmente como “Doença da Vaca Louca”, é uma enfermidade neuro-degenerativa fatal que afeta os bovinos, caracterizada clinicamente por nervosismo, reação exagerada a estímulos externos e dificuldade de locomoção, principalmente.

O período de incubação é longo, em média quatro a cinco anos, porém muito variável. A suspeita clínica deve ser confirmada através de exame do cérebro (histopatologia ou Imunoistoquímica) de animais que morreram com sintomatologia clínica sugestiva da doença ou que fazem parte de uma população de risco (ex: bovinos importados de países que tiveram casos autóctones). Recentemente começaram a ser utilizados testes de ELISA para detectar o agente infeccioso no cérebro de bovinos, poucos meses antes do início dos sinais clínicos. Não existe nenhum teste de diagnóstico in vivo.

A EEB pertence a um grupo de doenças conhecidas como Encefalopatias Espongiformes Transmissíveis – EET (em inglês, TSE, sigla para Transmission Spongiform Encefalopathy), assim denominadas em virtude do tipo de lesão que causam no cérebro.

A natureza do agente infeccioso da EEB, assim como das outras EET, é ainda motivo de controvérsia. A teoria mais aceita postula que o agente infeccioso, denominado Prion, deriva de uma proteína da membrana celular sensível à protease (PrPc). Segundo esta teoria, a PrPc sofreria uma mudança de conformação, formando um tipo insolúvel e patogênico de Prion (PrPsc).

Por sua vez, a proteína PrPsc induziria a transformação de mais proteínas normais em formas anormais, iniciando uma reação em cadeia que aumentaria de forma exponencial a produção de PrPsc. Não está totalmente esclarecido o mecanismo pelo qual a proteína anormal produz as alterações patológicas no cérebro dos indivíduos ou animais afetados.

EBB clássica

É transmitida por alimentos contaminados com o príon por terem sido confeccionados com produtos obtidos a partir de animais infectados.

Os sinais clínicos da enfermidade são nervosismo, reação exagerada a estímulos externos e dificuldade de locomoção, queda na produção de leite e diminuição de apetite.

É uma doença crônica, cujos sinais clínicos se ag ravam com o passar do tempo, podendo perdurar por meses. Além disso, a situação clássica apresenta longo período de incubação (tempo entre o momento da infecção e o início da doença), que em média é de 4 a 5 anos.

Cabe ressaltar que, segundo a OIE, no entanto, o leite, a gelatina e a carne produzida, não apresentam risco de transmissão.

EEB atípica

É causada por príons ligeiramente diferentes da causa clássica. A diferença é relacionada à massa molecular do príon, que pode ser menor (conhecido como L-EEB) ou maior (H-EEB). Ocorre em animais mais velhos acima de 9 anos.

Trata-se de uma manifestação rara, cuja origem não está totalmente esclarecida. Ainda assim, a teoria mais aceita é que esta apresentação é uma forma espontânea da doença, não sendo relacionada com a ingestão de alimentos contaminados.

Para ver as outras matérias relacionadas ao caso da “Vaca louca“, acesse os links abaixo:

Por: Vicente Delgado – AGRONEWS BRASIL, com informações do MAPA e BBC

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