A desvalorização do produtor rural brasileiro pode ter começado no infeliz momento em que o escritor Monteiro Lobato, no início do século passado, criou o personagem Jeca Tatu, baseado no trabalhador rural paulista.

Na visão do escritor, Jeca Tatu simboliza o caboclo brasileiro, abandonado pelos poderes públicos às doenças, ao atraso e à indigência. O personagem é descrito como um caipira de barba rala e calcanhares rachados – porque não tinha sapatos, era pobre, ignorante e avesso aos hábitos urbanos. Lobato descreveu esse caboclo como uma praga nacional: funesto parasita da terra, homem baldio, inadaptável à civilização, responsabilizando- o pelos problemas da agricultura.

Contudo, na realidade, é esse Jeca Tatu que trabalha a terra e produz o alimento para os urbanoides. Infelizmente, muitos deles ainda não sabem que o leite e a manteiga vêm da vaca; o pão e o macarrão, do trigo; o algodão, da planta do algodoeiro; a seda, do bicho-da-seda; todos cultivados/criados pelos milhares de “Jeca Tatus” que existem espalhados por aí, os quais doravante serão denominados, neste artigo, de nobres produtores rurais.

Eles são nobres produtores rurais porque cultivar a terra e criar animais são as mais nobres atividades praticadas pelo homem. Produzir alimentos vegetais é a magia de colher o sol.

Produzir proteína animal é a arte de transformação desta magia. Imagine, então, quão nobre é o homem que simultaneamente cultiva a terra, cria os animais e ainda respeita e protege o seu semelhante e o ambiente.

Temos a obrigação de saudar esses nossos nobres mágicos e artistas. E, para quem ainda não sabe, o setor agropecuário brasileiro representa 27% do PIB, 42,5% das exportações e 17 milhões de empregos. Esses bravos brasileiros fizeram, nessas últimas quatro décadas, com que o país se tornasse líder na produção e exportação de café, açúcar, suco de laranja e álcool a partir da cana-de- -açúcar.

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Como se não bastasse, o país também está em primeiro lugar nas vendas externas do complexo soja (farelo, óleo e grão), carne bovina, carne de frango, e ainda é destaque na produção de milho, arroz, suínos e pescados. Os estabelecimentos agropecuários são bastante variáveis em termos de tamanho das propriedades. Grandes propriedades, os chamados latifúndios, são destinados na sua maioria à produção pecuária extensiva.

As pequenas e médias propriedades, de até cerca de 500 hectares, geralmente exploram atividade mista, ou seja, lavoura e criação de grandes e pequenos animais. Dentre essas, destaca-se a chamada agricultura familiar. O primeiro grande erro no conceito que se tem atribuído aos produtores ruraisé de que são todos megaprodutores, ricos e abastados.

Em 2006, foram identificados 4.367.902 estabelecimentos de agricultores familiares, oque representa 84,4% total de estabelecimentos agropecuários brasileiros. Este contingente de agricultores familiares ocupava uma área de 80,3 milhões de hectares, ou seja, 24,3% da área ocupada pelas propriedades rurais brasileiros. Estes resultados mostram uma estrutura agrária concentrada no país: os estabelecimentos não familiares, apesar de representarem 15,6% do total, ocupavam 75,7% da área. A área média dos familiares era de 18,4 ha, e a dos não familiares, de 309,2 ha.

Este artigo foi escrito em 2012, mas continua muito atual.

Por: João Kluthcouski – DBO

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