Sistemas integrados podem ser adotados por propriedades de diferentes escalas, mas é preciso capacitação técnica para que tudo funcione.

A implantação de sistemas integrados vem crescendo cada vez mais no país. Atualmente, mais de 11,5 milhões de hectares já contam com algum tipo de integração. Mas a adoção de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) – e suas variantes – é para todos? Como começar?

“Você pode fazer integração em propriedades de qualquer tamanho, mas é preciso buscar assistência técnica”, afirma Flávio Wruck, pesquisador da Embrapa Agrossilvipastoril. Ele ainda explica que, proporcionalmente ao tamanho da produção, o impacto no rendimento pode ser até maior para os produtores menores, uma vez que os grandes já costumam ter nível tecnológico elevado.

Wruck diz que, para quem pensa em investir em sistemas integrados, o passo inicial é saber se há capacitação técnica para realizar o projeto, uma vez que o produtor vai partir para uma área fora do seu conhecimento. “Se o proprietário achar que ele ou o gerente da fazenda não têm formação ou tempo para estudar a fundo a integração, então precisa contratar um consultor especialista em ILPF, porque a ILPF vai mudar o patamar de uso da terra. É um investimento de médio e longo prazo e que precisa de retorno. Para isso, tem que saber fazer”.

As informações sobre os sistemas, de acordo com ele, podem ser encontradas no site da Embrapa, em trabalhos acadêmicos, vídeos, além de eventos. Já se for preciso contratar um profissional externo, o produtor pode pedir indicações de consultores para a Embrapa da sua região. Em Mato Grosso, por exemplo, há cerca de 30 profissionais que participam do projeto de transferência de tecnologia da entidade e podem elaborar os projetos.

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Com o conhecimento em mãos, o produtor pode partir para as fases seguintes da implantação. Confira quais são elas abaixo:

1º passo: diagnóstico – Para saber qual o modelo de integração mais adequado para a sua propriedade, é preciso fazer um diagnóstico completo antes de tomar a decisão. Esse raio x envolve uma análise das condições naturais, como solo, clima e parte ambiental, além de infraestrutura. “Tem que fazer um inventário do que a fazenda possui: máquinas, animais, qual a especialidade dela, entre outros pontos”, afirma o pesquisador da Embrapa. O dono também precisa analisar seu perfil – quais suas afinidades no campo, se ele vai ficar na fazenda ou na cidade – e suas finanças.

Outro ponto muito importante é observar o mercado na região para escolher um modelo que tenha público consumidor e rentabilidade. “O mercado vai apontar o norte para o projeto de integração”. Nesse quesito, explica Wruck, é preciso olhar não apenas para a venda dos produtos da fazenda, mas também para a compra de insumos e se há logística para tudo isso. Ele dá como exemplo de falha o caso do pau de balsa, madeira de baixo valor agregado, em Mato Grosso. “Houve um investimento forte na madeira, só que a logística para distâncias acima de 100 km consome todo o lucro para materiais de baixo valor agregado. Temos 8 mil hectares de pau de balsa em MT e não se sabe o que fazer com eles”.

2º passo: planejamento – Com o diagnóstico em mãos, é hora de planejar qual modelo de sistema integrado – ILPF, lavoura-pecuária, pecuária-floresta, etc – é o mais adequado, já que não há um modelo ideal para todo mundo. “O produtor vai descobrir que há uma modalidade de ILPF que mais se adequa a cada talhão da propriedade dele. Ele não vai conseguir fazer ILP na propriedade toda, por exemplo,porque vai ter problemas de textura de solo, topografia, entre outros. Então vai ter que encaixar, através do diagnóstico, a integração na propriedade”, alerta Wruck.

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O produtor também precisa ter em mente que a implantação de ILPF em toda a propriedade não será realizada – e nem deve ser – de um ano para o outro. “Sugerimos sempre que a integração seja feita aos poucos e que a extensão total seja dividida em pelo menos 5 anos agrícolas, ou seja, que a implantação não ultrapasse 20% da área de uma vez só”. Essa segmentação permitirá que o produtor ganhe conhecimento e experiência ao longo do tempo para que os erros iniciais sejam corrigidos conforme o avanço do processo. Além disso, nem sempre toda a propriedade precisa ser integrada.

3º passo: projeto técnico – Depois de feito o planejamento, é necessário elaborar o projeto técnico do empreendimento, com descrição, detalhamento e avaliação econômica. Segundo Wruck, não existe um formato padrão que vale para todos os casos, então, no caso de produtores que precisarão de financiamento, é preciso consultar o banco para usar o modelo dele.

4º passo: implantação, acompanhamento e análise – Nessa etapa, o sistema integrado sairá do papel para a propriedade, por isso, alguns cuidados, principalmente de gestão, são necessários. “É um sistema mais complexo. Falamos que quando você implanta ILPF, você muda de prateleira, então muda gestão, planejamento e precisa contratar ou treinar alguém para lidar com isso”. O pesquisador reforça a necessidade de capacitação, já que o sistema só terá rendimento se for bem trabalhado. “Você pode produzir uma forragem excepcional depois da soja, mas se não tiver gado para comer, estará jogando dinheiro fora”.

Outra questão importante é a da mão de obra. O proprietário precisa mostrar aos funcionários a importância do sistema e da interação entre as atividades no resultado final. Além disso, de acordo com o pesquisador, a remuneração e as tarefas – sejam as individuais ou em conjunto – precisam ficar claras desde o início para todo mundo, independente da atividade em que trabalhe na propriedade. “Se é uma fazenda grande, que precisa de gerente de pecuária e de lavoura, no caso de ILP, então o produtor também tem que ter um gerente geral que dará a última palavra e resolverá os conflitos que surgirem entre as pessoas de equipes diferentes”.

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Com a implantação do sistema, começa também o acompanhamento dos índices da propriedade. Ao final do primeiro ano, já é feita a análise desses resultados e a comparação com o que foi planejado. “Isso é extremamente importante para fazer os ajustes finos, as correções no próximo ano da implantação”, conta Wruck.

Por: Thuany Coelho – Portal DBO

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