Existe um consenso na sociedade e entre profissionais da saúde de que a principal causa de intolerância ao leite é a produção insuficiente da enzima lactase. Entretanto, o National Institutes of Health, nos EUA, mostrou que “muitas pessoas que relatam ser intolerantes à lactose não apresentam nenhuma evidência de mal absorção de lactose. Sendo assim, é improvável que as causas dos sintomas gastrointestinais apresentados por elas estejam relacionados à lactose.”Como um mecanismo alternativo, vêm surgindo fortes evidências de que a beta-casomorfina-7 bovina (BCM-7), derivada das beta-caseínas A1 (proteínas do leite) esteja relacionada aos quadros de intolerância ao leite.  

As beta-caseínas representam, aproximadamente, 30% do total de proteínas do leite de vaca, e podem estar presente em duas variantes: A1 ou A2.

No processo digestivo do leite, a ação das enzimas intestinais sobre a beta-caseína A1 libera o BCM-7, o que não ocorre no processo digestivo da beta-caseína A2.

A intolerância ao leite é um problema complexo, tanto em relação à saúde pública, como para o indivíduo intolerante.

Cerca de 80% de todo o conteúdo proteico no leite são caseínas. As caseínas são proteínas (polipeptídeos) formadas por uma cadeia constituída de 209 aminoácidos. Entre as estruturas orgânicas da caseína, podemos dividi-las em quatro grandes grupos: alfa S1 (30-46%  das  caseínas), alfa  S2 (8-11%), beta (25-35%) e kappa (8-15%). Dessas, as beta-caseínas são dividas em 13 variantes conhecidas: A1, A2, A3, B, C, D, E, F, H1, H2, I e G. Essas variantes são caracterizadas por diferenças mínimas de composição dos aminoácidos na cadeia proteica. As formas mais comuns no leite dos bovinos são as beta-caseínas A1 e A2. Finalmente, chegamos onde queríamos.

A diferença entre as cadeias da A1 e da A2 concentra-se na posição 67 da ordem de aminoácidos, em um total de 209, como mencionado anteriormente. Nessa posição, a A1 possui o aminoácido histidina e a A2 possui a prolina. Os pesquisadores sugerem que entre 5 mil e 10 mil anos atrás, todos os bovinos produziam um leite com apenas A2 entre as beta-caseínas, mas uma mutação genética fez com que grande parte da população de algumas raças passasse a produzir a variação A1. (Lembrando que mutações genéticas são comuns ao longo dos processos evolucionários e grandes passagens de tempo dentro das populações de seres vivos). Estudos realizados a partir de 1980 começaram a relacionar a beta-caseína A1 (´leite tipo A1´) com problemas crônicos em pessoas predispostas, que incluem diabetes tipo 1, danos cardíacos, transtornos mentais e outras doenças autoimunes.  Além disso, elas também estão implicadas em diversas alergias, intolerância ao leite e problemas intestinais.

Troca do aminoácido prolina pela histidina 

O mecanismo por trás desses supostos problemas residem na digestão diferenciada entre a A1 e a A2 no nosso intestino. A beta-caseína A2 não passa por uma hidrolisação enzimática (ou ela ocorre muito lentamente), produzindo o peptídeo beta-casomorfina-9 (BCM-9). Já a A1 passa pelo processo de hidrólise, produzindo o peptídeo opioide chamado de beta-casomorfina-7 (BCM-7). Esse opióide seria o responsável pelos problemas de saúde. Em bebês e crianças menores de 3 anos, os efeitos da BCM-7 seriam ainda mais danosos, já que esse peptídeo poderia passar mais facilmente pela barreira entre intestino e circulação sanguínea, a qual ainda está em formação nessa faixa de idade. Os estudos que geraram maior impacto de preocupação dentro da saúde pública foram os conduzidos por pesquisadores na Austrália e na Nova Zelândia entre 2000 e 2003, mostrando uma clara relação entre aumento nas taxas de doenças crônicas e consumo do leite A1 (mas sem elucidar um mecanismo bioquímico conclusivo de ação do BCM-7). Isso fez com que ambos os países começassem a investir pesado em produzir apenas cruzamentos que dessem origem a variações genéticas que fabricassem o leite A2. Hoje, em ambos os países, o leite A2 é bastante presente e, provavelmente, o mais consumido.

Bem, o problema disso tudo é que desde os estudos de 2000-2003 também começaram a ser conduzidos inúmeros outros trabalhos científicos para verificar a associação entre a beta-caseína A1 com o aumento dos problemas de saúde sugeridos previamente. Até hoje, entre incontáveis artigos científicos isolados e de revisão, não chegou-se a consenso nenhum. Muitos artigos de revisão não mostram prejuízos à saúde com o consumo da A1, enquanto outros mostram incertas relações de causa/efeito. Alguns artigos isolados acham tendências, enquanto outros não mostram significativos resultados. Porém, todos eles concordam em uma coisa: são necessários mais estudos.

Tudo isso gerou duas consequências, sendo uma delas boa e outra péssima. A boa é que a maioria dos países agora buscam selecionar linhagens genéticas entre os gados que produzam apenas o tipo A2 de leite. Ou seja, mesmo só havendo suspeitas e controvérsias, está se garantindo segurança total. A péssima notícia é que isso gerou muitos boatos falsos sobre o leite e seus derivados, algo impulsionado pelos ativistas contrários ao consumo de leite e por grupos vegetarianos que combatem a criação de animais para o consumo humano.

Vamos, então, tentar tirar esse medo da população:

1. Primeiro, não existe confirmação de nada ainda;

2. Segundo, as criança menores de 3 anos seriam as mais afetadas, principalmente por alergias. Porém, os órgãos de saúde já recomendam o leite materno para essa faixa de idade. Dar ao bebê e às crianças muito jovens preparados feitos com leite bovino já é um relativo risco por si só;

3. As raças mais afetadas pelo ´gene A1` são apenas muito comuns na Europa, EUA e algumas partes do sul-asiático. A linhagem bovina com essa mutação é nativa da Europa, e os gados africanos e asiáticos não foram afetados por ela. E outra: duas raças bem comuns no continente europeu são a Jersey e a Hostein, sendo que a primeira possui 75% da sua população produzindo o A2 e 25% que produz o A1, enquanto a segunda é meio a meio (50%). Ou seja, não são todas ´A1´. E, lembrando novamente, as linhagens com a A1 estão sendo cada vez mais excluídas do gado;

4. Aqui no Brasil, não precisamos nos preocupar muito com isso. Nosso gado é composto, em sua maior parte, pela raça Gir. A Gir chega a ter quase 100% do seu leite do tipo A2. E, somando-se a isso, todos os criadores estão tentando também excluir as linhagens A1, tornando o nosso leite ainda mais puro na variação livre de suspeitas, impulsionados pela maior valia do mesmo tanto no mercado interno quanto no internacional.

Foto: Grupo Cinco Estrelas (GV5)

O que poucos param para pensar também é o fato dos artigos de revisão não terem encontrado nenhum consenso, além de diversas falhas metodológicas nos estudos de 2003 terem sido apontadas. Uma hipótese bem plausível seria o possível financiamento de produtores agropecuários nesses trabalhos supostamente científicos. Ou seja, aqueles que possuíam grande quantidade do gado bovino do tipo A2 poderiam estar extrapolando dados de casos suspeitos, beneficiando o valor de mercado dos seus rebanhos. E, hoje, os produtos discriminados como ´A2´ ganham uma gigantesca vantagem comercial, sendo vendidos como opções mais saudáveis do que o leite tradicional, mesmo não havendo ainda consensos científicos sobre essa alegação.  De qualquer forma, a digestão diferenciada entre as duas proteínas é um fato e o BCM-7 é, sim, um suspeito de causar efeitos negativos no corpo (se significativos, ou não, ninguém sabe). Porém, grande parte dos trabalhos desse tipo foram feitos em animais e não existe correlação humana definitiva ainda. E, não, o BCM-7 não está implicado com o desenvolvimento de cânceres.

Populares na Austrália e Nova Zelândia, e também muito vendidos na China, Reino Unido e EUA, os leites rotulados como tipo A2 são vendidos como sendo mais saudáveis, além de possuírem um maior valor de venda

Um estudo realizado na China, avaliando o efeito dos tipos A1 e A2, mostrou que a ingestão do leite A1 por pessoas que possuem intolerância à lactose piora os sintomas gastrointestinais comuns dessa condição. Mas é preciso ressaltar que o grupo de controle analisado era relativamente pequeno (45 voluntários) e os testes foram feitos durante um curto período de tempo (2 semanas). Além disso, esse estudo não relaciona qualquer outra doença com o leite A1, apenas problemas gastrointestinais de pessoas intolerantes ao leite. (http://nutritionj.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12937-016-0147-z)

Por: Vicente Delgado/ AGRONEWS BRASIL, com informações do Saber atualizado e Beba mais leite

Deixe um Comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.